quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Os fortes candidatos que desistiram

Uma leitura recomenda-se

Os USA vão eleger em 2008 um novo presidente. Vários candidatos à nomeação pelos seus partidos apresentam as suas propostas.
Razões objectivas são bem exploradas, os factos estão presentes no quotidiano do povo americano, as imagens da guerra e seus horrores minam as certezas iniciais.
A disputa com outros candidatos do seu partido, suas concordâncias e divergências seriam um bom tema de análise, mas não é o âmbito deste trabalho.
O objecto de análise são as propostas deste candidato em concreto, contrastadas com as de outro candidato do mesmo partido do presidente que termina o seu mandato.
O Republicano Rudolph Giuliani tem uma tarefa ingrata politicamente. A guerra é sempre uma tragédia para os povos nela envolvidos, por mais válidos que sejam os argumentos dos que se dizem estar do lado do bem contra o mal.
Este candidato coloca de novo na agenda política internacional o uso da força contra o terrífico inimigo que o terrorismo representa para a ordem global, só a vitoria é determinante. A paz só é possível e aceitável para si, no quadro de uma América musculada, uma diplomacia determinada, e de que nada poderá acontecer no mundo sem o consentimento e influência dos USA no plano económico e cultural.
Como estas ideias de base se desenvolvem, complementam, justificam e suportam na campanha eleitoral destes candidatos, estando sempre presente como força nuclear que alimenta e estrutura todo o seu pensamento político, é o que será observado nos sub – temas seguintes
A primeira proposta de Edwards é a de que a América deve reconquistar o seu bom-nome. O 11 de Setembro de 2001 é considerado como um golpe brutal na liderança dos USA, mas também um momento único de solidariedade de todo o mundo.
Uma grande oportunidade foi perdida. Por um lado, desbaratou-se o capital acumulado pela promoção da democracia no mundo, por outro lado, não se beneficiou da enorme vaga de simpatia de países insuspeitos de alinhamento político com os USA.
O movimento da política externa americana foi conduzido no sentido oposto, acusa o candidato democrata, perdendo mesmo os bons níveis de popularidade em países amigos.
O respeito ganho no passado foi por se ter utilizado a força, em beneficio da protecção dos sistemas de leis e da instituições democráticas, e não agindo como um império. A liderança do mundo observa-se quando um presidente americano fala e o mundo escuta, remata.
O anterior Mayor de New York City afirma-se – demagogicamente – como da geração do 9/11. O simbolismo desta afirmação encerra em si uma carga emotiva e legitimadora de todas as propostas musculadas do candidato republicano.
Considera que as bases do Estado-nação, o sistema internacional e a própria civilização, foram atacados por um implacável e brutal inimigo, o Islão.
Legitima a ofensiva vigorosa, recorda que esta guerra será longa e que entramos numa nova era de problemas globais. O que se observa não é mais que o início.
Propõe um balanceamento entre o realismo e o idealismo como orientação para a política externa da nação, como único meio para obter uma paz efectiva.
Os fins serão sempre definidos pelos nossos ideais, afirma, e que a reacção violenta é uma consequência do falta de realismo e consistência dos nossos inimigos.
A política realista clássica, em sua opinião, não é suficientemente útil para os Estados Unidos. É previsível, e é uma vantagem paras os inimigos. Estes não devem esperar qualquer tipo de indulgência ou alimentar falsas expectativas. A próxima década é determinante
O Senador da Carolina do Norte não tem dúvidas em aplicar as poderosas forças militares dos USA contra todos os que atentarem contra os interesses da nação. Mas acredita que o mais importante é procurar as causas do terrorismo, e não fomentar o seu desenvolvimento usando a “guerra do terror”
É um slogan, precisa, não um plano que falhou.
Em sua opinião, esta administração, com esta política, fragilizou os USA e deu uma bandeira aos grupos terroristas, justificando e permitindo o alastramento do conflito a todo o mundo Islâmico.
Convicto, afirma que fazer a guerra ao islamismo radical é minimizar o desafio que o mundo ocidental enfrenta. E sugere que os USA não podem ganhar este conflito sozinhos.
É necessário controlar o alastramento da influência da Al Qaeda, e ao mesmo tempo não permitir à China capitalizar a impopularidade dos USA para projectar o seu “soft power”. Não esquecendo a Rússia que tiraniza os seus vizinhos e abertamente desafia os USA e a Europa.
A prioridade deve ser para o “smart power” e não mais a divisão entre “soft power” e “hard power”. Conclui.
Na abordagem aos novos desafios para este século, salienta a proliferação das armas de destruição maciça como a ameaça mais grave que a humanidade enfrenta.
A nova administração deverá trabalhar em conjunto com as instituições internacionais, conduzindo os seus esforços no sentido de reforçar a acção destas em encontra soluções e saídas para um tratado de não proliferação de armas nucleares, e que permita o desenvolvimento de forma pacífica da energia nuclear
Um alerta para os novos actores, que não serão Estados, mas sim organizações que vão de movimentos terroristas a organizações com autoridade nas leis internacionais.
A instabilidade internacional é ameaçada também pelos novos Estados inviáveis, não respeitando as leis democráticas, o pluralismo e a imprensa livre.
Uma nova visão do mundo deve começar por colocar um fim à guerra do Iraque, cujos problemas são muito profundos, e não podem ser resolvidos pelas forças armadas dos EUA.
Para o candidato Rudolph Giuliani, a América nos últimos 15 anos foi mal conduzida, quer por republicanos quer por democratas. A ideia do fim da guerra-fria é um pensamento ansioso, um desejo, o contrário de um realismo verdadeiro.
Em conformidade, considera que as forças armadas devem ser suficientemente fortes para dar resposta a um ataque, em qualquer parte do mundo onde tal ocorra.
Seria um convite à agressão uma América hesitante em enfrentar os seus inimigos. Os benefícios compensarão os custos.
Neste programa deve-se incluir um sistema de mísseis para a defesa nacional, instalado em território dos nossos aliados, criando uma forte dissuasão.
Na panóplia dos medos, o perigo das armas químicas e biológicas no interior dos EUA justificam o investimento numa constelação de satélites, que controlem todas as fábricas e em todo o mundo, tanto de dia como de noite.
Um Estado super securitário é a sua exigência. As vitórias militares, sendo essenciais, não são porém suficientes.
Só uma diplomacia determinada e mais eficaz pode assegurar uma paz realista.
A América só é forte – enfatiza – quando utiliza em conjunto a força das armas e a diplomacia. Esta pode ser utilizada para conversações com os nossos inimigos, mas nunca com aqueles que querem a destruição da América.
Uma condição prévia que coloca em possíveis conversações com estes últimos, é a de que a América esteja em posição de força e saiba o que quer.
A lição é de que se deve utilizar a técnica da cenoura e do cajado, por exemplo, no Irão, “podemos” enfraquecer a sustentação popular do regime danificando a sua economia, ou destruir toda a sua infra-estrutura nuclear.
O tempo do anti-americanismo sem custos deve terminar.
Confrontados com novos desafios no Médio Oriente, na região do Pacífico, em África e na América Latina, não poderemos recuar em nenhum debate. Armados com argumentos honestos ganharemos a guerra das ideias.
Convicto de que não existe alternativa ao Estado soberano, considera ingénuos os que têm muita fé na globalização. Consente contudo que as organizações internacionais são um sistema onde é necessário agir.
O papel da Nato deve ser reexaminado. Os seus quase 60 anos de leais serviços entre os USA e a Europa foram alterados, quer pela adesão de Estados que foram inimigos, quer pelo alargamento dos cenários de intervenção.
Nos antípodas, Giuliani considera que a aliança com o Japão foi consideravelmente reforçada na administração Bush, e é uma “rocha” de estabilidade no extremo oriente.
A Coreia do Sul é também considerada um contribuinte para a paz internacional.
A Austrália é um parceiro de alto nível.
No sul da Ásia, a Índia é um parceiro privilegiado em vários domínios, que vão dos serviços de inteligência à cooperação, e desenvolvimento na utilização pacífica da força nuclear.
A Índia será a coluna dorsal para a segurança e a prosperidade na zona.
As relações com a Rússia e a China serão complexas num futuro previsível. O governo dos USA não deve ficar passivos perante os abusos dos direitos humanos. Do mesmo modo devem cooperar, só e se estes países continuarem no caminho da democracia, liberdades civis e uma vontade firme e não corrupta numa economia aberta que o mundo de hoje desfruta.
O livre comércio com os vizinhos no continente americano é vital, é a sustentação da paz, da prosperidade e da liberdade.
A sua politica para a América do Sul vai no sentido de apoiar o caminho para o livre comércio, que vem sendo praticado pelos governos recentemente eleitos. Na Cuba de Fidel Castro espera a morte do velho líder e não permitirá o reforço do poder de Raul Castro. É, no seu entender, o que de momento é possível.
Em África. Paz, AIDS, malária, genocídios, propõe aumentar o comércio com o continente.
Por ultimo aborda as Nações Unidas com a necessidade de um olhar realista. Esta organização pode ser útil para funções humanitárias e de “peacekeeping” e da qual não se pode esperar mais nada.
Ficou muito distante das expectativas no momento da sua criação. E neste particular, está certo.
Concede no entanto que apesar das enormes carências nas acções de paz, a humanidade estaria muito pior se não existisse um mecanismo de discussão internacional.
Outros instrumentos são necessários para o futuro.
O criticismo que lhe merece a acção da ONU advém da falta de autoridade na resolução dos conflitos armados, que se eternizam. Neste aspecto é fácil estar totalmente de acordo com Rudolph Giuliani.
Um reforço democrático nas decisões do Conselho de Segurança permitiria uma maior adesão dos povos e um forte acréscimo de legitimidade na sua acção.
A política externa dos EUA assenta em programas de auxílio económico e militar. O próximo presidente deve, segundo o candidato republicano, ter presente que o número de democracias triplicou desde 1970, e que o progresso não é somente possível, é real.
Quanto à criação de um Estado Palestiniano, questiona se é interesse dos USA promover a criação de um Estado que será no futuro o suporte do terrorismo islâmico.
Como se deve manejar a influência económica e cultural, recordando o grande sucesso na Europa e no Japão devastados pela 2ª Guerra Mundial, onde foram aplicadas políticas de ajuda à reconstrução social e económica.
Uma proposta original é a criação de uma agência que incorporasse uma organização civil-militar, altamente especializada, que reconstruísse países arruinados.
As lições do passado estão sempre presentes na reflexão do candidato a presidente, que propõe adaptação aos novos desafios, observa que metade da população mundial viverá nas cidades, lembra a sua própria experiência como governante de Nova York, e que tolerar os maus comportamentos reproduz comportamentos ainda mais graves.
A sociedade civil pode triunfar sobre o caos se agir de forma determinada.
A América não deve esquecer que sempre enfrentou os seus inimigos, e deve basear a sua confiança mais nas acções do que nas palavras dos outros.
Ter sempre presente que só a força pode conduzir a uma paz realista.
É este o contributo de um candidato republicano da “velha guarda” para a política Americana nos próximos dez anos nos USA e em todo o mundo.
Observando a evolução das candidaturas à nomeação pelo seu partido, não choca considerar como muito provável uma vitória, quase certa, pois, estejamos de acordo ou não, é neste momento o único candidato desta área política a ter um programa forte de convicções, e com experiência de governação.
Retomei a leitura do programa do candidato democrata e constato uma quase concordância de análise sobre a Rússia, a China e a Índia, com uma significativa diferença, que consiste em propor este país como futuro membro do Conselho de Segurança. Uma potência amiga, com poder nuclear, pode ser uma boa parceria para o controle da energia para fins civis, e separar a componente militar definitivamente.
Promete reforçar para o dobro as despesas militares, em especial na segurança das tropas e seus sistemas de apoio, oferecer o melhor a quem arrisca a vida pelo país.
Uma visão quase messiânica leva-o a uma fé profunda de que os problemas do mundo assentam na instrução das populações, e por esta via elimina a pobreza.
O micro crédito a uma escala planetária salvaria milhões de pessoas da fome e das garras do terrorismo. É o desenvolvimento global como programa.
É de um enorme voluntarismo na ajuda externa, é uma política que fará os USA regressar à liderança moral do mundo, e tornar este um lugar mais seguro.
Do mesmo modo que o seu adversário político faz uma viagem ao passado e compara a intervenção dos USA numa Europa devastada, que precisava de ajuda e de esperança, criando aliados, eliminados os tiranos.
Faz da Europa de hoje, rica, próspera e em paz, um exemplo da sabedoria e presciência.
É sua crença e missão fazer todo o possível para recuperar o papel histórico dos USA como referência para o mundo. Um exemplo luminoso para ser seguido pelas outras nações.
Uma conclusão possível é a de estarmos perante dois homens sinceros.
Com propósitos legítimos de preservar o seu povo e o mundo dos males de que padecem. Com mais músculo ou mais cooperação.
Creio poder afirmar que com qualquer um destes candidatos na presidência dos USA o mundo não seria mais perigoso do que é nos nossos dias.
A análise do mandato anterior é o ponto de partida do candidato Democrata John Edwards, Senador do Estado da Carolina do Norte. Os erros da anterior administração e dos rivais políticos por si realçados, estão quase sempre em contra-ponto e servem às mil maravilhas a sua argumentação, de uma América como referência civilizacional, uma liderança moral em harmonia com os seus aliados e com o mundo.

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