segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

TOMADA DE POSIÇÃO DA SEDES

1) UM DIFUSO MAL-ESTAR

Sente-se hoje na sociedade portuguesa um mal-estar difuso, que alastra e mina a confiança essencial à coesão nacional.

Nem todas as causas desse sentimento são exclusivamente portuguesas, na medida em que reflectem tendências culturais do espaço civilizacional em que nos inserimos. Mas uma boa parte são questões internas à nossa sociedade e às nossas circunstâncias. Não podemos, por isso, ceder à resignação sem recusarmos a liberdade com que assumimos a responsabilidade pelo nosso destino.

Assumindo o dever cívico decorrente de uma ética da responsabilidade, a SEDES entende ser oportuno chamar a atenção para os sinais de degradação da qualidade da vida cívica que, não constituindo um fenómeno inteiramente novo, estão por detrás do referido mal-estar.

2) DEGRADAÇÃO DA CONFIANÇA NO SISTEMA POLÍTICO

Ao nível político, tem-se acentuado a degradação da confiança dos cidadãos nos representantes partidários, praticamente generalizada a todo o espectro político.

É uma situação preocupante para quem acredita que a democracia representativa é o regime que melhor assegura o bem comum de sociedades desenvolvidas. O seu eventual fracasso, com o estreitamento do papel da mediação partidária, criará um vácuo propício ao acirrar das emoções mais primárias em detrimento da razão e à consequente emergência de derivas populistas, caciquistas, personalistas, etc.

Importa, por isso, perseverar na defesa da democracia representativa e das suas instituições. E desde logo, dos partidos políticos, pilares do eficaz funcionamento de uma democracia representativa. Mas há três condições para que estes possam cumprir adequadamente o seu papel.

Têm, por um lado, de ser capazes de mobilizar os talentos da sociedade para uma elite de serviço; por outro lado, a sua presença não pode ser dominadora a ponto de asfixiar a sociedade e o Estado, coarctando a necessária e vivificante diversidade e o dinamismo criativo; finalmente, não devem ser um objectivo em si mesmos...

É por isso preocupante ver o afunilamento da qualidade dos partidos, seja pela dificuldade em atrair e reter os cidadãos mais qualificados, seja por critérios de selecção, cada vez mais favoráveis à gestão de interesses do que à promoção da qualidade cívica. E é também preocupante assistir à tentacular expansão da influência partidária – quer na ocupação do Estado, quer na articulação com interesses da economia privada – muito para além do que deve ser o seu espaço natural.

Estas tendências são factores de empobrecimento do regime político e da qualidade da vida cívica. O que, em última instância, não deixará de se reflectir na qualidade de vida dos portugueses.

3) VALORES, JUSTIÇA E COMUNICAÇÃO SOCIAL

Outro factor de degradação da qualidade da vida política é o resultado da combinação de alguma comunicação social sensacionalista com uma justiça ineficaz. E a sensação de que a justiça também funciona por vezes subordinada a agendas políticas.

Com ou sem intencionalidade, essa combinação alimenta um estado de suspeição generalizada sobre a classe política, sem contudo conduzir a quaisquer condenações relevantes. É o pior dos mundos: sendo fácil e impune lançar suspeitas infundadas, muitas pessoas sérias e competentes afastam-se da política, empobrecendo-a; a banalização da suspeita e a incapacidade de condenar os culpados (e ilibar inocentes) favorece os mal-intencionados, diluídos na confusão. Resulta a desacreditação do sistema político e a adversa e perversa selecção dos seus agentes.

Nalguma comunicação social prolifera um jornalismo de insinuação, onde prima o sensacionalismo. Misturando-se verdades e suspeitas, coisas importantes e minudências, destroem-se impunemente reputações laboriosamente construídas, ao mesmo tempo que, banalizando o mal, se favorecem as pessoas sem escrúpulos.

Por seu lado, o Estado tem uma presença asfixiante sobre toda a sociedade, a ponto de não ser exagero considerar que é cada vez mais estreito o espaço deixado verdadeiramente livre para a iniciativa privada. Além disso, demite-se muitas vezes do seu dever de isenta regulação, para desenvolver duvidosas articulações com interesses privados, que deixam em muitos um perigoso rasto de desconfiança.

Num ambiente de relativismo moral, é frequentemente promovida a confusão entre o que a lei não proíbe explicitamente e o que é eticamente aceitável, tentando tornar a lei no único regulador aceitável dos comportamentos sociais. Esquece-se, deliberadamente, que uma tal acepção enredaria a sociedade numa burocratizante teia legislativa e num palco de permanente litigância judicial, que acabaria por coarctar seriamente a sua funcionalidade. Não será, pois, por acaso que é precisamente na penumbra do que a lei não prevê explicitamente que proliferam comportamentos contrários ao interesse da sociedade e ao bem comum. E que é justamente nessa penumbra sem valores que medra a corrupção, um cancro que corrói a sociedade e que a justiça não alcança.

4) CRIMINALIDADE, INSEGURANÇA E EXAGEROS

A criminalidade violenta progride e cresce o sentimento de insegurança entre os cidadãos. Se é certo que Portugal ainda é um país relativamente seguro, apesar da facilidade de circulação no espaço europeu facilitar a importação da criminalidade organizada. Mas a crescente ousadia dos criminosos transmite o sentimento de que a impune experimentação vai consolidando saber e experiência na escala da violência.

Ora, para além de alguns fogachos mediáticos, não se vê uma acção consistente, da prevenção, da investigação e da justiça, para transmitir a desejada tranquilidade.

Mas enquanto subsiste uma cultura predominantemente laxista no cumprimento da lei, em áreas menos relevantes para as necessidades do bom funcionamento da sociedade emerge, por vezes, uma espécie de fundamentalismo utra-zeloso, sem sentido de proporcionalidade ou bom-senso.

Para se ter uma noção objectiva da desproporção entre os riscos que a sociedade enfrenta e o empenho do Estado para os enfrentar, calculem-se as vítimas da última década originadas por problemas relacionados com bolas de Berlim, colheres de pau, ou similares e os decorrentes da criminalidade violenta ou da circulação rodoviária e confronte-se com o zelo que o Estado visivelmente lhes dedicou.

E nesta matéria a responsabilidade pelo desproporcionado zelo utilizado recai, antes de mais, nos legisladores portugueses que transcrevem para o direito português, mecânica e por vezes levianamente, as directivas de Bruxelas.

5) APELO DA SEDES

O mal-estar e a degradação da confiança, a espiral descendente em que o regime parece ter mergulhado, têm como consequência inevitável o seu bloqueamento. E se essa espiral descendente continuar, emergirá, mais cedo ou mais tarde, uma crise social de contornos difíceis de prever.

A sociedade civil pode e deve participar no desbloqueamento da eficácia do regime – para o que será necessário que este se lhe abra mais do que tem feito até aqui –, mas ele só pode partir dos seus dois pólos de poder: os partidos, com a sua emanação fundamental que é o Parlamento, e o Presidente da República.

As últimas eleições para a Câmara de Lisboa mostraram a existência de uma significativa dissociação entre os eleitores e os partidos. E uma sondagem recente deu conta de que os políticos – grupo a que se associa quase por metonímia “os partidos” – são a classe em que os portugueses menos confiam.

Este estado de coisas deve preocupar todos aqueles que se empenham verdadeiramente na coisa pública e que não podem continuar indiferentes perante a crescente dissociação entre o conceito de “res pública” e o de intervenção política!

(Vitor Bento (Presidente), M. Alves Monteiro, Luís Barata, L. Campos e Cunha, João Ferreira do Amaral, Henrique Neto, F. Ribeiro Mendes, Paulo Sande, Amílcar Theias)

Os partidos estão na base da formação das políticas públicas que determinam a organização da sociedade portuguesa. Na Assembleia ou no Governo exercem um mandato ratificado pelos cidadãos, e têm a obrigação de prestar contas de forma permanente sobre o modo como o exercem.

Em geral o Estado, a esfera formal onde se forma a decisão e se gerem os negócios do país, tem de abrir urgentemente canais para escutar a sociedade civil e os cidadãos em geral. Deve fazê-lo de forma clara, transparente e, sobretudo, escrutinável. Os portugueses têm de poder entender as razões que presidem à formação das políticas públicas que lhes dizem respeito.

A SEDES está naturalmente disponível para alimentar esses canais e frequentar as esferas de reflexão e diálogo que forem efectiva e produtivamente activadas.

Sedes, 21 de Fevereiro de 2008

O Conselho Coordenador

A regeneração é necessária e tem de começar nos próprios partidos políticos, fulcro de um regime democrático representativo. Abrir-se à sociedade, promover princípios éticos de decência na vida política e na sociedade em geral, desenvolver processos de selecção que permitam atrair competências e afastar oportunismos, são parte essencial da necessária regeneração.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

O PROFESSOR EDMUNDO CURVELO


Com as melhores saudações
António Brotas

Eu tive um fabuloso professor de Filosofia. Foi o professor Edmundo Curvelo, no Colégio Militar, em 1946, por ocasião de uma muito curiosa experiência que vale a pena recordar. Havia, na altura, no então chamado ensino liceal, um exame no 6º ano (10º ano de escolaridade). O Ministério da Educação resolveu passar este exame para o 5º ano, mas não o quiz fazer sem antes realizar uma experiência pedagógica. Ou porque lhe era dificil faze-la numa escola dependente do Ministério, ou porque, simplesmente, a não sabia fazer, combinou com o Ministério da Guerra (antecessor do actual Ministério da Defesa) que a experiência fosse feita no Colégio Militar que dele dependia. O Ministério da Guerra, que não estava propriamente vocacionado para fazer experiências pedagógicas do ensino secundário, deu liberdade total aos professores do Colégio Militar para escolherem as disciplinas com os conteudos, programas, métodos de avaliação e exames que muito bem entendessem. É assim que eu não tenho o curso do liceu, mas sim o curso do Colégio Militar, reconhecido como equivalente pelo Ministério da Educação.

O professor Edmundo Curvelo já tinha sido meu professor de História, disciplina em que não tinha adoptado nenhum livro. Em vez disso, convenceu o Director a abrir aos alunos a biblioteca do Colégio Militar onde até à data não tinham acesso. Também não seguiu, que eu tenha notado, qualquer programa. Distribuia-nos temas que preparavamos e, depois, eramos nós que davamos as aulas (nalguns casos em francês). A Filosofia ensinada no Liceu tinha, na altura, quatro componentes: a Psicologia, a Lógica, a Estética e a Ética/Moral.

Quando o professor Curvelo viu que não tinha de preparar os seus alunos para o exame oficial do 7º ano, pos imediatamente de lado a Estética e a Ética . Não falou do nome de nenhum antigo filosofo e interessou-se, sobretudo, pela Psicologia, em que só nos falou de duas coisas: das sensações e a da memória. Ensinou-nos a olhar para as nossas sensações e para a nossa memória e apaixonou-nos. E, como estava encarregue de organizar o Laboratório de Psicotecnologia do Colégio Militar, responsabilizou um aluno por cada aparelho de medida.

Passados todos estes anos, se escrevo artigos sobre a Educação é porque tive como professor o professor Edmundo Curvelo. As minhas reflexões pedagógicas e "filosóficas" são muitas vezes "diálogos" que imagino com ele, em que faço perguntas e tento imaginar como responderia. Por exemplo: eu digo: " Com a minha experiência de professor e lembrando-me das suas aulas, acho que o ensino da Filosofia, no início, só deve ter três componentes: as sensações, a memória e a inteligência, em que os jovens sejam ensinados a olhar para as suas sensações, para a sua memória e para a sua inteligência. Porque é que o professor, nas suas aulas, não falou da terceira componente?". Penso que ele responderia qualquer coisa do género: " Porque era prematuro.

Olhar para a própria inteligência e para a dos outros não é facil. É algo que se deve aprender na Universidade e nem sempre se consegue (como sabe, eu fui depois ensinar na Faculdade de Letras)". Eu diria: " Agora, quando leio um texto fundamental do Einstein, ou de algum outro grande físico, já não me interesso pela Física. O que me interessa é ver como é que aqueles sujeitos usaram a inteligência para chegar aquilo. Já descobri que a Estética tem um grande papel. Agradeço-lhe bastante por não me ter dado nenhuma aula de Estética dando-me tempo para descobrir a sua importância. E o mesmo para a Ética/Moral". Acho que ele diria: "Quanto à Estética, aquilo de que vocês gostavam era de jogar futebol. E quanto à Moral, eram muito solidários uns com os outros o que eu apreciava muito".

Convém lembrar os grandes professores porque, sem eles, os sistemas educativos arriscam-se a ser grandes máquinas burocráticas, bloqueadas por dentro pelos seus programas e avaliações internas, que perdem o sentido do que deviam e poderiam ser.

A escrita deste texto estimulado pelo artigo: "Ensino da Filosofia deve começar no Básico", do Professor Pedro Miguel Melo de Almeida, publicado no "Expresso", creio que em 2005, foi publicado no jornal "Notícias de Arronches", da terra natal do professor Curvelo, no número de Janeiro de 2007.

António Brotas Professor jubilado do IST

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Os fortes candidatos que desistiram

Uma leitura recomenda-se

Os USA vão eleger em 2008 um novo presidente. Vários candidatos à nomeação pelos seus partidos apresentam as suas propostas.
Razões objectivas são bem exploradas, os factos estão presentes no quotidiano do povo americano, as imagens da guerra e seus horrores minam as certezas iniciais.
A disputa com outros candidatos do seu partido, suas concordâncias e divergências seriam um bom tema de análise, mas não é o âmbito deste trabalho.
O objecto de análise são as propostas deste candidato em concreto, contrastadas com as de outro candidato do mesmo partido do presidente que termina o seu mandato.
O Republicano Rudolph Giuliani tem uma tarefa ingrata politicamente. A guerra é sempre uma tragédia para os povos nela envolvidos, por mais válidos que sejam os argumentos dos que se dizem estar do lado do bem contra o mal.
Este candidato coloca de novo na agenda política internacional o uso da força contra o terrífico inimigo que o terrorismo representa para a ordem global, só a vitoria é determinante. A paz só é possível e aceitável para si, no quadro de uma América musculada, uma diplomacia determinada, e de que nada poderá acontecer no mundo sem o consentimento e influência dos USA no plano económico e cultural.
Como estas ideias de base se desenvolvem, complementam, justificam e suportam na campanha eleitoral destes candidatos, estando sempre presente como força nuclear que alimenta e estrutura todo o seu pensamento político, é o que será observado nos sub – temas seguintes
A primeira proposta de Edwards é a de que a América deve reconquistar o seu bom-nome. O 11 de Setembro de 2001 é considerado como um golpe brutal na liderança dos USA, mas também um momento único de solidariedade de todo o mundo.
Uma grande oportunidade foi perdida. Por um lado, desbaratou-se o capital acumulado pela promoção da democracia no mundo, por outro lado, não se beneficiou da enorme vaga de simpatia de países insuspeitos de alinhamento político com os USA.
O movimento da política externa americana foi conduzido no sentido oposto, acusa o candidato democrata, perdendo mesmo os bons níveis de popularidade em países amigos.
O respeito ganho no passado foi por se ter utilizado a força, em beneficio da protecção dos sistemas de leis e da instituições democráticas, e não agindo como um império. A liderança do mundo observa-se quando um presidente americano fala e o mundo escuta, remata.
O anterior Mayor de New York City afirma-se – demagogicamente – como da geração do 9/11. O simbolismo desta afirmação encerra em si uma carga emotiva e legitimadora de todas as propostas musculadas do candidato republicano.
Considera que as bases do Estado-nação, o sistema internacional e a própria civilização, foram atacados por um implacável e brutal inimigo, o Islão.
Legitima a ofensiva vigorosa, recorda que esta guerra será longa e que entramos numa nova era de problemas globais. O que se observa não é mais que o início.
Propõe um balanceamento entre o realismo e o idealismo como orientação para a política externa da nação, como único meio para obter uma paz efectiva.
Os fins serão sempre definidos pelos nossos ideais, afirma, e que a reacção violenta é uma consequência do falta de realismo e consistência dos nossos inimigos.
A política realista clássica, em sua opinião, não é suficientemente útil para os Estados Unidos. É previsível, e é uma vantagem paras os inimigos. Estes não devem esperar qualquer tipo de indulgência ou alimentar falsas expectativas. A próxima década é determinante
O Senador da Carolina do Norte não tem dúvidas em aplicar as poderosas forças militares dos USA contra todos os que atentarem contra os interesses da nação. Mas acredita que o mais importante é procurar as causas do terrorismo, e não fomentar o seu desenvolvimento usando a “guerra do terror”
É um slogan, precisa, não um plano que falhou.
Em sua opinião, esta administração, com esta política, fragilizou os USA e deu uma bandeira aos grupos terroristas, justificando e permitindo o alastramento do conflito a todo o mundo Islâmico.
Convicto, afirma que fazer a guerra ao islamismo radical é minimizar o desafio que o mundo ocidental enfrenta. E sugere que os USA não podem ganhar este conflito sozinhos.
É necessário controlar o alastramento da influência da Al Qaeda, e ao mesmo tempo não permitir à China capitalizar a impopularidade dos USA para projectar o seu “soft power”. Não esquecendo a Rússia que tiraniza os seus vizinhos e abertamente desafia os USA e a Europa.
A prioridade deve ser para o “smart power” e não mais a divisão entre “soft power” e “hard power”. Conclui.
Na abordagem aos novos desafios para este século, salienta a proliferação das armas de destruição maciça como a ameaça mais grave que a humanidade enfrenta.
A nova administração deverá trabalhar em conjunto com as instituições internacionais, conduzindo os seus esforços no sentido de reforçar a acção destas em encontra soluções e saídas para um tratado de não proliferação de armas nucleares, e que permita o desenvolvimento de forma pacífica da energia nuclear
Um alerta para os novos actores, que não serão Estados, mas sim organizações que vão de movimentos terroristas a organizações com autoridade nas leis internacionais.
A instabilidade internacional é ameaçada também pelos novos Estados inviáveis, não respeitando as leis democráticas, o pluralismo e a imprensa livre.
Uma nova visão do mundo deve começar por colocar um fim à guerra do Iraque, cujos problemas são muito profundos, e não podem ser resolvidos pelas forças armadas dos EUA.
Para o candidato Rudolph Giuliani, a América nos últimos 15 anos foi mal conduzida, quer por republicanos quer por democratas. A ideia do fim da guerra-fria é um pensamento ansioso, um desejo, o contrário de um realismo verdadeiro.
Em conformidade, considera que as forças armadas devem ser suficientemente fortes para dar resposta a um ataque, em qualquer parte do mundo onde tal ocorra.
Seria um convite à agressão uma América hesitante em enfrentar os seus inimigos. Os benefícios compensarão os custos.
Neste programa deve-se incluir um sistema de mísseis para a defesa nacional, instalado em território dos nossos aliados, criando uma forte dissuasão.
Na panóplia dos medos, o perigo das armas químicas e biológicas no interior dos EUA justificam o investimento numa constelação de satélites, que controlem todas as fábricas e em todo o mundo, tanto de dia como de noite.
Um Estado super securitário é a sua exigência. As vitórias militares, sendo essenciais, não são porém suficientes.
Só uma diplomacia determinada e mais eficaz pode assegurar uma paz realista.
A América só é forte – enfatiza – quando utiliza em conjunto a força das armas e a diplomacia. Esta pode ser utilizada para conversações com os nossos inimigos, mas nunca com aqueles que querem a destruição da América.
Uma condição prévia que coloca em possíveis conversações com estes últimos, é a de que a América esteja em posição de força e saiba o que quer.
A lição é de que se deve utilizar a técnica da cenoura e do cajado, por exemplo, no Irão, “podemos” enfraquecer a sustentação popular do regime danificando a sua economia, ou destruir toda a sua infra-estrutura nuclear.
O tempo do anti-americanismo sem custos deve terminar.
Confrontados com novos desafios no Médio Oriente, na região do Pacífico, em África e na América Latina, não poderemos recuar em nenhum debate. Armados com argumentos honestos ganharemos a guerra das ideias.
Convicto de que não existe alternativa ao Estado soberano, considera ingénuos os que têm muita fé na globalização. Consente contudo que as organizações internacionais são um sistema onde é necessário agir.
O papel da Nato deve ser reexaminado. Os seus quase 60 anos de leais serviços entre os USA e a Europa foram alterados, quer pela adesão de Estados que foram inimigos, quer pelo alargamento dos cenários de intervenção.
Nos antípodas, Giuliani considera que a aliança com o Japão foi consideravelmente reforçada na administração Bush, e é uma “rocha” de estabilidade no extremo oriente.
A Coreia do Sul é também considerada um contribuinte para a paz internacional.
A Austrália é um parceiro de alto nível.
No sul da Ásia, a Índia é um parceiro privilegiado em vários domínios, que vão dos serviços de inteligência à cooperação, e desenvolvimento na utilização pacífica da força nuclear.
A Índia será a coluna dorsal para a segurança e a prosperidade na zona.
As relações com a Rússia e a China serão complexas num futuro previsível. O governo dos USA não deve ficar passivos perante os abusos dos direitos humanos. Do mesmo modo devem cooperar, só e se estes países continuarem no caminho da democracia, liberdades civis e uma vontade firme e não corrupta numa economia aberta que o mundo de hoje desfruta.
O livre comércio com os vizinhos no continente americano é vital, é a sustentação da paz, da prosperidade e da liberdade.
A sua politica para a América do Sul vai no sentido de apoiar o caminho para o livre comércio, que vem sendo praticado pelos governos recentemente eleitos. Na Cuba de Fidel Castro espera a morte do velho líder e não permitirá o reforço do poder de Raul Castro. É, no seu entender, o que de momento é possível.
Em África. Paz, AIDS, malária, genocídios, propõe aumentar o comércio com o continente.
Por ultimo aborda as Nações Unidas com a necessidade de um olhar realista. Esta organização pode ser útil para funções humanitárias e de “peacekeeping” e da qual não se pode esperar mais nada.
Ficou muito distante das expectativas no momento da sua criação. E neste particular, está certo.
Concede no entanto que apesar das enormes carências nas acções de paz, a humanidade estaria muito pior se não existisse um mecanismo de discussão internacional.
Outros instrumentos são necessários para o futuro.
O criticismo que lhe merece a acção da ONU advém da falta de autoridade na resolução dos conflitos armados, que se eternizam. Neste aspecto é fácil estar totalmente de acordo com Rudolph Giuliani.
Um reforço democrático nas decisões do Conselho de Segurança permitiria uma maior adesão dos povos e um forte acréscimo de legitimidade na sua acção.
A política externa dos EUA assenta em programas de auxílio económico e militar. O próximo presidente deve, segundo o candidato republicano, ter presente que o número de democracias triplicou desde 1970, e que o progresso não é somente possível, é real.
Quanto à criação de um Estado Palestiniano, questiona se é interesse dos USA promover a criação de um Estado que será no futuro o suporte do terrorismo islâmico.
Como se deve manejar a influência económica e cultural, recordando o grande sucesso na Europa e no Japão devastados pela 2ª Guerra Mundial, onde foram aplicadas políticas de ajuda à reconstrução social e económica.
Uma proposta original é a criação de uma agência que incorporasse uma organização civil-militar, altamente especializada, que reconstruísse países arruinados.
As lições do passado estão sempre presentes na reflexão do candidato a presidente, que propõe adaptação aos novos desafios, observa que metade da população mundial viverá nas cidades, lembra a sua própria experiência como governante de Nova York, e que tolerar os maus comportamentos reproduz comportamentos ainda mais graves.
A sociedade civil pode triunfar sobre o caos se agir de forma determinada.
A América não deve esquecer que sempre enfrentou os seus inimigos, e deve basear a sua confiança mais nas acções do que nas palavras dos outros.
Ter sempre presente que só a força pode conduzir a uma paz realista.
É este o contributo de um candidato republicano da “velha guarda” para a política Americana nos próximos dez anos nos USA e em todo o mundo.
Observando a evolução das candidaturas à nomeação pelo seu partido, não choca considerar como muito provável uma vitória, quase certa, pois, estejamos de acordo ou não, é neste momento o único candidato desta área política a ter um programa forte de convicções, e com experiência de governação.
Retomei a leitura do programa do candidato democrata e constato uma quase concordância de análise sobre a Rússia, a China e a Índia, com uma significativa diferença, que consiste em propor este país como futuro membro do Conselho de Segurança. Uma potência amiga, com poder nuclear, pode ser uma boa parceria para o controle da energia para fins civis, e separar a componente militar definitivamente.
Promete reforçar para o dobro as despesas militares, em especial na segurança das tropas e seus sistemas de apoio, oferecer o melhor a quem arrisca a vida pelo país.
Uma visão quase messiânica leva-o a uma fé profunda de que os problemas do mundo assentam na instrução das populações, e por esta via elimina a pobreza.
O micro crédito a uma escala planetária salvaria milhões de pessoas da fome e das garras do terrorismo. É o desenvolvimento global como programa.
É de um enorme voluntarismo na ajuda externa, é uma política que fará os USA regressar à liderança moral do mundo, e tornar este um lugar mais seguro.
Do mesmo modo que o seu adversário político faz uma viagem ao passado e compara a intervenção dos USA numa Europa devastada, que precisava de ajuda e de esperança, criando aliados, eliminados os tiranos.
Faz da Europa de hoje, rica, próspera e em paz, um exemplo da sabedoria e presciência.
É sua crença e missão fazer todo o possível para recuperar o papel histórico dos USA como referência para o mundo. Um exemplo luminoso para ser seguido pelas outras nações.
Uma conclusão possível é a de estarmos perante dois homens sinceros.
Com propósitos legítimos de preservar o seu povo e o mundo dos males de que padecem. Com mais músculo ou mais cooperação.
Creio poder afirmar que com qualquer um destes candidatos na presidência dos USA o mundo não seria mais perigoso do que é nos nossos dias.
A análise do mandato anterior é o ponto de partida do candidato Democrata John Edwards, Senador do Estado da Carolina do Norte. Os erros da anterior administração e dos rivais políticos por si realçados, estão quase sempre em contra-ponto e servem às mil maravilhas a sua argumentação, de uma América como referência civilizacional, uma liderança moral em harmonia com os seus aliados e com o mundo.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

O MUNDO É PLANO

Uma história breve do século XXI

Thomas L. Fridman

Recensão de Ramalho dos Santos


Quando Bill Clinton foi eleito Presidente dos EUA, em 1992, praticamente ninguém, fora do governo e da Academia, tinha e-mail.

Não é esta observação do autor que o transporta e estimula na procura das respostas ao que de novo este mundo representa e como se transformou, e quais as forças que impulsionaram a transformação.

Retrospectivamente viaja pela história encontrando os marcos da mudança, caracteriza a Globalização 1.0, com a descoberta do novo mundo, até perto do início do século XIX, é o tempo dos países e das religiões. Desta última data até ao ano 2000, situa a Globalização 2.0, ou seja, o período da concentração e das multinacionais.

A revolução industrial criou o ambiente dos transportes a baixo custo na primeira fase, assim como a segunda fase foi marcada pelas comunicações que culminaram na world wide web.

A Globalização 3.0 está a encolher o mundo do tamanho pequeno para um tamanho reduzido, e simultaneamente, a tornar plano o “terreno do jogo”.

A característica fundamental da sua análise desta nova fase é a possibilidade inovadora de serem os indivíduos a colaborarem e competirem globalmente. Nesta nova fase da Globalização os conceitos e termos chave são, por ordem de importância: outsourcing, call center, e-mail, software, briefing, mas offshoring ou seja a deslocalização é um debate que está perigosamente na ordem do dia e nas agendas políticas de todos os governos nacionais.

Em todas as épocas as pessoas “foram apanhadas pelo enredo da história” e é mais que evidente que é necessário uma rede de segurança social adequada. É a consequência de que o trabalho tem que ser feito onde fôr mais eficaz e eficiente, uma inevitabilidade levada ao extremo.

As pessoas, como as empresas, devem lidar com o seu próprio destino económico, tal como no passado os nossos pais e avós o fizeram com as fábricas de têxteis, de moagens e de calçado.

Bangalore na Índia, Dalian na China ou Banguecoque na Tailândia, são realidades vivas de um mundo novo. As suas gentes com capacidades de trabalho, competência e dedicação inimagináveis num ocidental, aprendem, além das especialidades técnicas, o inglês com pronúncia americana, canadiana ou mesmo o “british” mais selecto, mas também chineses aprendem japonês ou coreano como língua de trabalho.

As certezas e a determinação de um mundo novo encontrou o autor nas palavras de um dirigente chinês: “para superar dificuldades ou contrariedades de uma vida muito dura foi necessária muita ambição, ás gerações de hoje é-lhes exigido o mesmo espírito de sacrifício”.

Como corolário de ciência económica afirmou “um lugar que tiver os recursos humanos mais ricos e a mão-de-obra mais barata, será a escolha natural das empresas e do mundo dos negócios”.

Um outro mundo está em plena transformação mesmo dentro das sociedades ocidentais, Homesourcing ou outsourcing não são estratégias concorrentes, são manifestações da mesma realidade, sourcing (recrutamento noutras fontes).

A Globalização “descreve a mudança da relação entre governos e as multinacionais”, afirmou o antigo responsável do Departamento de Estado do Comércio durante a Administração Clinton, mas não só, é também uma forma de modelos sociais, políticos e empresariais completamente novos.

A questão fundamental é “o que sucede se a entidade política do país onde reside não dá respostas sobre um posto de trabalho no ciberespaço, ou não sabe como legislar uma verdadeira colaboração entre trabalhadores em diferentes cantos do mundo”.

Quem controla a legislação laboral?

Quem fixa os impostos sobre os salários?

Quem deve beneficiar desses impostos?

Este primeiro capítulo foi a descoberta e o enquadramento histórico das fases do

processo. O próximo explica como e porquê o mundo se mantêm assim: um mundo plano.


Correndo ao longo do segundo capítulo, o autor cumpre com a proposta deixada no final do anterior capítulo.

Ou seja, numa parte substancial da obra, cerca cento e cinquenta páginas, realça os acontecimentos marcantes, quer do aspecto político, tecnológico ou financeiro.

Com método analítico quase cientifico, entrelaça a queda do muro de Berlim, mais concretamente o esboroar da ex-URSS e da doutrina que a suportava, com as grandes descobertas cientificas, a especulação financeira e o pensamento dos maiores actores da história envolvidos em todo o processo, que divide em dez grandes temas.

A queda do muro de Berlim é um acto maior nesta trama, é o desbloquear de energias ”reprimidas” e o de uma nova “visão”. “A capacidade de pensar o mundo como um mercado único, um ecossistema único e uma comunidade única”.

Mesmo que o leitor detenha algum conhecimento dos avanços da nova era da “conectividade” ficará deslumbrado pela explicação, quase simplória, dos homens que a tornaram possível, e a sua “arrumação” no processo global.

Faz uma citação magistral de Bill Gates quando comparou a Internet com a corrida ao ouro…”tinha sido “feito” mais dinheiro a vender Levi´s, picaretas, pás e quartos de hotel aos garimpeiros do que com o ouro encontrado”.

“Criar coisas a partir do nada”, estava lançada uma fantástica ideia de criação pura. Tudo se resume a “software” e à sistematização do trabalho, com o inevitável “hardware” que tudo processa, e a incrível rede que tudo interliga a Word Wide Web.

Blogues: só noticias e comentários?

O que é entendido com alguma ligeireza como um simples meio menor de comunicação, é minha convicção pessoal, que brevemente se observará comunidades cristalizando-se em torno dos novos “deuses” da opinião, do conceito, e de agregação.

A informação mais a liberdade de a difundir a todos e de todos receber, a divulgação científica, tudo sem controlo, sem suporte de referência nem filtro possível para as diferentes classes, etárias ou sociais, é um desafio não menos importante com que todos terão que lidar no futuro.

Informação (em sentido lato) de todo o conhecimento, não criará anarquia ao serviço do homem, a auto-regulação será suficiente? Será o mesmo que democracia, liberdade, justiça e equidade para todos?

Fica avisado, é a fórmula com que o autor remata este tema, estou de acordo.

A teoria do segundo comprador, as vantagens desta situação, é a de poder comprar por dez por cento o bem da oportunidade mal avaliada do primeiro comprador, é assim que a Índia teve a sua grande oportunidade, adquiriu uma infra-estrutura de fibras ópticas a um preço super competitivo que lhe permitiu um posicionamento imbatível no futuro.

Com a junção de uma enorme massa cinzenta dos seus universitários, o redireccionar da sua política económica, que anteriormente se orientava pelo poderoso vizinho do norte, a super sorte com os rios de trabalho que a mudança do milénio carreou, estavam lançados os dados da fortuna e do desenvolvimento para este gigante letárgico que é a Índia.


Forcei a lombada do livro de Friedman pela pagina 421 até que a cola que sustém todas as folhas rangesse e permitisse que este se mantivesse aberto sem lhe colocar um peso adicional em cima, significava um arrumar violento de todo um manancial de leitura a revisitar num outro contexto, a densidade dos temas da 2ª, 3ª, 4ª, partes da obra são de leitura obrigatória. Uma simplificação da análise é seguramente contra producente.

Considerei atacar e terminar este trabalho na 5ª parte não abordando a 6ª parte, por esta ser muito intimista, cada um encontrará ai pontos de convergência ou não, são temas de crença e especulação, mais bola de cristal. Com a excepção da confirmada certeza económica e cultural que é a eBay.

Uma conclusão possível consiste em observar que o autor nos leva para um clima de fim de festa, ao fim e ao cabo o maravilhoso mundo novo tornado pequeno e plano não será bem assim. Confessa que sempre teve consciência dessa realidade.

Assim, encaminha-nos numa viagem no comboio fantasma, um desfile de horrores que este mundo ainda é para milhares de milhões de seres humanos e que poderá alastrar para muitos mais.

Uma conclusão brilhante, a de que ser classe média é mais um estado de espírito do que uma realidade económica.

O que divide as classes para o autor, é estas terem esperança ou não, é uma linha muito importante que suporta parte do seu raciocínio, mas também certezas e convicções.

A certeza de que para muitos milhões de Indianos os únicos ratos que verão na vida são os da natureza e nunca os que se encontram ao lado do computador, não lhe permite devaneios filosóficos ou revisitar as profecias de Marx de um mundo sem classes.

A filantropia dos arquimilionários é a outra face da mesma moeda, sem ela ninguém se ocuparia dos três mil milhões sem esperança, os que nunca entrarão no ciclo da criação da riqueza e bem-estar.

Uma dimensão importante é a que situa os que se encontra entre um mundo não plano e um mundo plano, uma quinta dimensão entre ambos, são os sem poder, os que nunca acederão a uma justa fatia do bolo.

Como nos Globalizámos, ou até que ponto nos Globalizamos, são abordagens de trabalho do autor. As multinacionais ao serviço do povo, depois do lucro máximo, querem salvar o outro mundo, o dos que não podem pagar, mas mesmo assim, saber o que ainda se pode fazer pagar aos governos colocados entre a espada da tecnologia e o muro do progresso e do desenvolvimento.

Que as multinacionais não são ONG`s todo o mundo já sabe.

domingo, 20 de janeiro de 2008

EXTREMA POBREZA

O maior e mais dramático buraco negro da humanidade é constituído pela fome extrema, pela violência selvática e desnecessária sobre seres frágeis, crianças, mulheres e velhos, miseráveis e indigentes, é a pobreza absoluta de tudo: habitação, alimentação, educação, saúde, segurança, esperança, etc.

Deveria existir em cada um de nós uma miniatura do buraco negro, feito de impotência, de raiva, um revirar de tripas individual e não transmissível. Como um nojo profundo e constante, que forçasse a cairmos na realidade e na dimensão concreta da tragédia em que se encontra o nosso semelhante.

Existem soluções? Afirmam que sim. Nas Nações Unidas, Kofi Annan em Setembro do ano 2000 fazia aprovar a Declaração do Milénio, como o objectivo mais importante das Nações Unidas para o futuro, e tendo por meta 2015, ou seja, um horizonte temporal significativo, para o mundo reduzir a metade a pobreza extrema, as doenças e a fome nos países mais pobres do mundo.

Quando faltam apenas 7 anos, os resultados são muito escassos, terrivelmente mínimos, ainda mais dramáticos ao constatarmos que os ligeiros progressos de uma zona do mundo foram anulados pelo agravamento em outro continente.

Não saímos de sítio nenhum.

As vítimas são mais horríveis, as feridas estão mais presentes, a miséria é mais violenta e mais brutal, a imaginação humana não pode justificar um mundo de super abundância e desperdício convivendo pacificamente como a miséria extrema.

Há muita falta de empenho político, observa-se em cada dia que passa que os problemas ganham novas dimensões, ora são os conflitos entre Estados ou entre etnias, ora as implicações extravasam as soberanias locais e ganham dimensão global.

Arrastam sempre correntes humanas de deslocados, velhos, mulheres, crianças,

desnutridos, errantes e perseguidos.

Violados todos os direitos humanos até se atingirem os limites do insuportável, aí, e só aí chegados, as Organizações Internacionais minimizam o sofrimento e apaziguam as nossas boas consciências ocidentais.

Jeffrey Sachs foi nomeado Director do Projecto de Desenvolvimento do Milénio

por Kofi Annan para enfrentar os desafios do nosso mundo profundamente dividido.

Com a nomeação de uma equipa de 250 especialistas em desenvolvimento e uma estratégia clara para erradicar a pobreza extrema do planeta, cinco anos depois declarava ser possível e pela primeira vez na história ir mais além e erradicar definitivamente a pobreza extrema no mundo nos próximos 20 anos.

No seu livro, O Fim da Pobreza: Economic Possibilities For Our Time, explora as raízes da prosperidade económica e oferece sugestões para encontrar o caminho, a fim de retirar da pobreza extrema os cidadãos mais pobres do mundo.

Enfatiza uma certeza, morrem milhões de pessoas todos os anos, porque são demasiado pobres para se manterem vivas e questiona como é possível conhecer esta realidade e não se agir.

Assim propõe a leitura de um resumo com setenta páginas, onde se pode retirar as propostas fundamentais dos duzentos e cinquenta especialistas de todo o mundo que elaboraram os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio da ONU e o Millenium Project, uma obra com 2700 páginas em catorze volumes, que oferece ao mundo uma visão concreta do que é possível e desejável realizar.

Um alerta, se não se ajudar a salvar as pessoas que querem sobre tudo permanecer vivas, o mundo vai ser mais inseguro, instável e infeliz. É emocionante, para si, constatar que em qualquer aldeia por mais pobre que seja, o povo sabe a realidade da vida e tem um enorme sentido do que deve ser feito, falta uma ajuda, e essa é a nossa parte da questão, contribuir é justo e indispensável.

O quadro é negro, existem cerca de mil milhões de pessoas no mundo que não têm as necessidades básicas satisfeitas, vivem em subnutrição crónica e sem acesso a qualquer tipo de cuidados de saúde.

Era esta a realidade da humanidade há duzentos anos, todos estavam em situação de extrema pobreza, a vida era curta, as epidemias eram cíclicas e a fome constante, assim na Europa como em qualquer parte do mundo. Para nós tudo mudou.

A solução para a pobreza extrema não é o mercado, este está instruído para a ignorar, portanto, só fora do mercado é possível encontrar a solução para agir.

São três as realidades do empobrecimento: insuficiente produção alimentar, insuficiente controlo das doenças e o isolamento económico.

Cuidar da sobrevivência com os factores de produção restabelecidos, após esta fase, financiamento das pequenas actividade com o desejável micro crédito, cuidados de saúde e planeamento demográfico. Manter a paz é impossível em populações famintas, é este o programa para o alvo mais crítico, o continente africano.

Mudar mentalidades dentro da própria ONU, convencer de que não é despejando biliões nos problemas que estes se resolvem, impôr um plano prático de soluções é possível, implementar e sustentar o desenvolvimento é prioritário.